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| Data: | 06/01/2009 |
No Princípio Era o Verbo
Nas tradições religiosas e espirituais de todo o mundo, os estados espirituais são comparados à luz. O objetivo espiritual de todas elas é a "iluminação". Na forma corriqueira de nos referirmos ao desenvolvimento espiritual, buscamos a "luz que ilumina o nosso caminho", para que possamos percorrê-lo com segurança. Durante séculos, artistas de diferentes tradições fizeram uso da luz para pintar os grandes mestres espirituais. Como um claro indício do poder espiritual, a luz circunda os apóstolo do Arco da Aliança e forma auréolas ao redor dos santos, de Cristo e de Buda. Nos primeiros versículos do Gênese lemos, "E Deus disse: Faça-se a luz e a luz foi feita". Porém, se achamos que a expressão máxima do poder espiritual é a luz, estamos enganados. O espírito é criado e animado não pela luz, mas pelo som.
Se examinarmos mais atentamente o Gênese, veremos antes a afirmação "Deus disse..." A luz da criação divina foi introduzida pelo som. O verbo divino, de acordo com o Gênese, é que deu origem à luz espiritual que todos nós aspiramos.
O Evangelho segundo São João, do Novo Testamento, que foi escrito milhares de anos depois do Gênese, começa com o versículo, "No princípio era o Verbo..." O princípio não era a luz, mas o som na forma do verbo divino. Nem o Antigo nem o Novo Testamento contêm qualquer versículo dizendo algo como "E Deus fez a luz brilhar". Em vez disso, Deus cria o fenômeno expressando-o verbalmente. O instrumento primordial da criação é o som.
Na sabedoria do antigo Oriente, encontramos o mesmo ensinamento. Todo o universo é criado quando Deus decide manifestar a realidade pelo poder do verbo divino. Em certos textos orientais, esse poder é mencionado como Saraswati - a Palavra.
O livro de sir John Woodroffe, The Garland of Letters, inclui uma tradução de uma escritura sagrada chamada Satha patha Brahmana, escrita há milhares de anos. O sexto volume dessa escritura começa assim:
No princípio era Deus com o poder da palavra. Deus disse, "Que eu possa ser muitos... que eu possa ser propagado". E por sua vontade expressa através de uma fala sutil, ele uniu-se a essa fala e fecundou-se. Prajapathi e Saraswati foram então criados. E Prajapathi é o nome do progenitor de todos os seres.
Essa afirmação parece espantosamente semelhante ao conceito de criação expresso no Gênese e no texto inicial do Evangelho segundo São João.
Uma visão geral da cosmologia védica
A religião védica, transmitida durante milênios pela tradição oral anterior ao advento da escrita, apresenta uma visão concisa de como surgiu o cosmo. A criação começou com [o] Ser, um estado tão sublime e diferente de tudo que podemos conceber e que só pode ser expresso em metáforas, alegorias e imagens. Uma das representações mais comuns desse estado de Ser é a divindade hindu Narayana, que flutua num mar trevoso. Do plexo solar do Narayana adormercido nasce uma outra entidade chamada Brahma.
Enquanto Narayana dorme e Brahma é gerado, o universo é concebido como uma idéia divina. Não-manifesto, esse universo é vago e informe. Mass esse Ser passou a ser Mente, que é Brahma. Entretanto, essa mente de brahma não é estática, porém dinâmica. Logo, ela experimenta o Desejo, que rapidamente é sucedido pela Vontade. O Desejo e a Vontade levam Brahma a invocar esse poder - Saraswati, é Expressão Divina da manifestação. Saraswati é descrito como um princípio feminino. É "a Palavra" conforme entendida na tradição védica. Quando Brahma invoca seu poder, quando ele invoca Saraswati, o universo passa a existir com todas as forças que o animarão pelos bilhões de anos que virão.
O processo de criação é, então, descrito através das imagens de uma breve narrativa:
Primeiro, Deus como Ser...
Do Ser surge a Mente...
Da Mente surge o Desejo...
Do Desejo surge a Vontade...
Da Vontade surge a Palavra...
Da Palavra surge todo o resto.
A mesma idéia é expressa em outros texto orientais. No budismo chinês, Kuan Yin é o termo usado para referir-se à "voz divina" que dá origem à forma ilusória do universo surgida dos sete elementos. Os Vedas referem-se à divina corrente sonora Shabda Brahma, que permeia tudo e é uma chave para a criação.
As referências, nos textos sagrados, ao poder do som não se restringem aos mitos da criação. No livro do Êxodo do Antigo Testamento, consta que o som das trombetas derruba as muralhas de Jericó. No Oriente, o som das trombetas é um símbolo de grande poder espiritual associado com a introvisão e a consciência elevada. Considera-se que o som da trombeta é "ouvido" ou percebido pela terceira visão - ponto localizado entre as sobrancelhas - que pode ter contato direto com o Divino.
Essa idéia antiga continua presente em textos e mestres mais recentes. O mestre e místico Sufi Hazrat Inayat Khan escreveu: "O som divino é a causa de toda manifestação. Quem conhece o mistério do som conhece o mistério de todo universo." Na primeira metade do século XX, H.P. Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, escreveu em A Doutrina Secreta: "O som é um tremendo poder oculto. Ele tem uma força tão estupenda que a eletricidade gerada por um milhão de Niágaras jamais poderia neutralizar nem a menor potencialidade, quando dirigida pelo conhecimento apropriado."
Essa última afirmação conduz à idéia de que o enorme poder do som que criou o universo também é acessível para a humanidade. Dispersas por várias tradições religiosas, encontramos referências ao poder divino das palavras. A palavra latina cantare, raiz da palavra inglesa "cantor" (solista), é comumente traduzida por "cantar". Entretanto, alguns lingüístas acreditam que seu significado original tenha sido "criar por meio de mágica". Os índios Huichol do México usam a palavra espanhola cantor como designação de xamã - um indício evidente do poder que eles atribuem à voz. Uma outra palavra latina, carmen, costuma ser traduzida como "poema", mas o seu significado original era "formula mágica".
Visões de místicos e cientistas
Alguns cientistas também reconheceram o poder do som e das ondas sonoras que, às vezes, são organizadas eexpressas em forma de música. O astrônomo do século XVI Johannes Kepler escreveu: "Deus era o maestro da sinfonia cósmica, fazendo com que os planetas abandonassem suas órbitas inteiramente circulares e adotassem conscientemente órbitas elípticas complexas para criarem uma música ainda mais bela." Kepler considerava as órbitas dos planetas como vibrações, a Música das Esferas.
Cerca de dois mil anos antes, o metamático e filósofo grego Pitágoras observou: "As sete esferas emitiram cada uma uma vogal para a Terra, as quais juntas fornaram-se a criação de tudo o que existe no planeta." Essa afirmação poderia provir quase diretamente um texto da tradição mística judaica conhecida como Cabala, segundo a qual o poder das vogais é considerado divino. E os antigos rishis (sábios) da Índia chegaram à mesma conclusão, afirmando que a pronúncia das vogais corresponde à vibração de cada um dos cincos planetas internos.
O - Vênus
A - Júpiter
E - Saturno
I - Marte
U - Mercúrio
Ravi Shankar, o mestre contemporâneo de música clássica indiana, refere-se ao som do poder de Deus como Nada Brahma, o som divino que ressoa através do universo e do "corpo humano sutil" que existe em todos nós. Shankar diz: "Nossa tradição nos ensina que o som é Deus. A música é uma disciplina espiritual que eleva o ser interior à paz e bem-aventurança divinas. Somos orientados para o esforço de realizar a meta fundamental de conhecer a essência eterna e imutável do universo. Nossa música revela a essência do universo que ela reflete. Através da música, pode-se chegar a Deus." Em outra citação, ele diz: "Músicos sacros como Baiju Bavare, Swami Haridas ou Mian Tan sen operam milagres ao executar certos Ragas [composições clássicas indianas]. Dizem que alguns conseguem acender fogueiras ou lampiões a querosene quando cantam uma raga, ou fazer chover, dissolver pedras, desbrochar flores e atrair animais ferozes para um círculo calmo e tranqüilo ao redor de sua cantoria."
Em Nada Brahma: The World Is Sound, de Joachim-Ernst Berendt, os astrônomos Jeff lightman e Robert M. Sickels descrevem sons incríveis em seus experimentos com radioastronomia: "A extremidade da galáxia torna-se uma cacofonia de sons sibilantges produzidas por alterações rápidas nos níveis de energia molecular atômica... O gigantesco planeta Júpiter produz seus próprios ruídos peculiares: imensos suspiros rápidos iguais ao forte rugido de uma onda distante, movida por eletricidade jupiteriana de tempestades tão intensas que merecem o nome de deus que o planeta herdou. O Sol também produz ruídos, assobios e estalos na quietude e rugidos de intensidade alarmante quando cospe no espaço fragmentos gigantescos de matéria."
Rudolf Kippenhahn, diretor do Instituto de Pesquisas Astrofísicas Max Planck, de Munique, também escreveu sobre os sons produzidos pelos planetas e corpos celestes: "Ouvimos o tiquetaquear heteródino dos pulsares... vibrações de energia intensa de agrupamentos estelares esféricos, com seqüência que se repetem. No espaço, existem tiquetaques, batidas de tambor, zumbidos e estalos."
Os grandes ritmos do cosmos são também revelados pela física moderna. Em The Silent Pulse, George Leonard escreve sobre a vastidão do espaço que compõe o que chamamos de matéria. "Podemos ver a estrutura perfeitamente cristalina da fibra muscular, tremulando como um trigal ao vento, pulsando muitos trilhões de vezes por segundo... Quando nos aproximamos do núcleo, ele começa a se dissolver. Ele tambem não passa de um campo de oscilação [que] com a nossa aproximação desfaz-se em puro ritmo... Do que é feito o corpo ? De vacuidade e ritmo. No coração do mundo, não existe solidariedade, apenas dança."
O poder do som, o poder da música, o poder das vogais e o poder da palavra são as grandes forças criadoras do universo: como seus tutelares, os seres humanos têm um tremendo poder espiritual. Por séculos, as escrituras e os mestres do misticismo oriental vêm ensinando mantras como meio de dominar esse poder.
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